CÂNCER HEREDITÁRIO

Em torno de 10% dos cânceres são hereditários e, os demais, esporádicos. Nos primeiros, herdamos um gene defeituoso, ou seja, mutado de um dos nossos genitores, e basta ganharmos mais uma mutação para desenvolvermos a neoplasia (câncer). A pessoa portadora de um gene defeituoso, relacionado ao câncer hereditário, tem 50% de possibilidade de transmití-lo aos seus descendentes e, em geral, estes desenvolvem a doença, na dependência das características deste gene. Como exemplo, podemos citar a polipose adenomatosa familiar, que é uma doença hereditária, resultante de mutação germinativa (material genético do pai ou da mãe), no gene APC, e que se caracteriza na sua forma clássica, pelo aparecimento de inúmeros pólipos no intestino grosso e reto, e que ao longo da vida vão se transformar em câncer.

A figura 5 mostra o heredograma de uma família com FAP, onde a mãe teve câncer de intestino aos 45 anos, uma filha com 25 anos teve inúmeros pólipos, um irmão teve câncer de intestino aos 38 anos, e um neto, aos 15 nos, com polipose.

figura5

Os genes relacionados aos cânceres hereditários, na maioria das vezes, pertencem ao grupo dos chamados genes supressores de tumores, ou seja, genes que protegem nossas células contra a doença e, uma vez alterados, ou seja, mutados, perdem sua função protetora e propiciam o aparecimento do câncer. A característica clínica do câncer hereditário é o acometimento de vários membros da mesma família pela doença, e o seu aparecimento, em idade mais precoce que a habitual. Em geral, o diagnóstico é feito pela história clínica e a árvore genealógica (heredograma) característica, e quando necessário, é indicado o teste genético. Um caso curioso de câncer hereditário vem da família de Napoleão Bonaparte; o mesmo teve câncer do estômago ainda jovem, o que também ocorreu com um irmão, três irmãs, o pai e o avô paterno. Isto foi descrito como sendo uma doença hereditária, do ponto de vista clínico, em 1939, por um pesquisador chamado Sokolov, em 1939. O heredograma da família Bonaparte pode ser visto no lado esquerda figura 6, onde estão assinalados os diversos membros da família acometidos por câncer do estômago.

Recentemente, através de estudos de Biologia Molecular, verificou-se que o gene envolvido na forma hereditária do câncer do estômago, é o gene da E-caderina, uma molécula responsável por manter as células unidas umas às outras. Identificar uma família portadora de câncer hereditário como esta, é muito importante, pois podemos tomar providências antes que o câncer aconteça naqueles membros da família portadores do gene defeituoso, retirando-se o estômago delas, ou fazendo acompanhamento rigoroso com endoscopia para se fazer diagnóstico precoce e tratamento apropriado, e fazer aconselhamento genético, ou seja, orientar a família sobre a doença e a possibilidade de transmitir o gene defeituoso aos descendentes.

O caso de Angelina Joly, muito comentado na imprensa recentemente, por ter se submetido à remoção bilateral das glândulas  mamárias , é uma exemplo de cirurgia profilática (preventiva), para uma pessoa portadora de mutação germinativa nos genes predisponentes ao câncer de mama( BRCA 1 e BRCA2). As mulheres com mutações nestes genes também tem risco muito aumentado para câncer de ovário e uma vez menopausadas estes órgãos devem ser removidos para prevenir a doença.

Recentemente, uma série de tumores hereditários como mama, intestino grosso, tireóide, sarcomas, retinoblastoma, tumor renal, neurofibromatose, osteocondromatose e outros, além de seu aspecto clínico característico, tiveram os seus aspectos moleculares conhecidos, ou seja, os genes envolvidos foram identificados, e também os pontos destes genes que estão alterados levando às doenças. É muito importante identificar os casos de câncer hereditário, pois, os aspectos clínicos, de diagnóstico, de tratamento e acompanhamento são muito diferentes em relação aos casos de cânceres esporádicos.