PREVENÇÃO

A prevenção do câncer pode ser primária ou secundária. Na primeira, devemos tomar medidas para que a doença não aconteça, ou ocorra mais tardiamente. Se hoje sabemos, que cerca de 10% dos cânceres são hereditários, 30% causados por produtos oriundos do tabagismo, 15% provenientes de micro-organismos, e uma boa parte deles relacionados aos hábitos de vida, medidas preventivas podem ser tomadas.

No caso do câncer hereditário, o aconselhamento genético para prevenir a procriação com células contendo  o gene defeituoso  deve ser discutido com o casal.   Nos pacientes que já possuem o gene defeituoso, identificados pelos aspectos clínicos e ou  por testes genéticos, podemos, em casos especiais, fazer cirurgias preventivas removendo órgãos, como, por exemplo, a tireóide, estômago, intestino e até outros, antes que a doença aconteça, ou então, fazermos uma vigilância rigorosa para diagnosticarmos, o mais cedo possível o tumor  e, com isto, obtermos altíssimos índices de cura (figura 6).

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A educação da população em relação aos malefícios da exposição excessiva ao sol, aos males causados pelo habito de fumar e pelo consumo exagerado de álcool, e também, sobre a importância de uma dieta equilibrada, da prática de exercícios físicos e evitar contacto com microorganismos causadores de câncer, são medidas importantes na prevenção primária do câncer.

O câncer de pele é o tumor mais frequente na população mundial. As pessoas de pele clara e olhos azuis ou verdes têm uma propensão maior a este tipo de tumor e, portanto, devem tomar um cuidado dobrado em relação à exposição ao sol.

A incidência de câncer primário do fígado, nos países desenvolvidos, é muito menor do que naqueles subdesenvolvidos, porque a vacinação contra a hepatite B nos primeiros, é muito mais frequente do que nos segundos, assim sendo, a vacinação contra a hepatite B é uma medida necessária para a prevenção do câncer do fígado.

O câncer do colo uterino é o terceiro  tumor mais frequente na mulher brasileira e, também frequente, em outros países em desenvolvimento e subdesenvolvidos, e como já vimos, é causado por HPVs oncogênicos.

Para evitarmos estes vírus, devemos evitar a promiscuidade sexual, ou caso ela seja inevitável, deve-se usar preservativo durante a relação sexual. Recentemente, foram lançadas vacinas contra os principais tipos de vírus causadores de câncer do colo uterino. Asso, sendo a vacinação das mulheres antes de se iniciar a atividade sexual, é uma medida preventiva muito importante. e para as mulheres de alto risco para a exposição.  Para aquelas mulheres que já são portadoras de HPV oncogênico, a primeira tarefa do médico é desmistificar o papel do vírus, ou seja, informar que um pequeno percentual delas desenvolverá câncer do colo uterino, mas, deve ter um cuidado especial em relação ao exame ginecológico, e caso haja alguma lesão precursora da doença, ela deve ser tratada.

Em relação à dieta, eu, pessoalmente, não aconselho ninguém a ser vegetariano, até porque as proteínas animais têm um papel importante na nutrição da humanidade. Ter uma dieta equilibrada no que se refere ao consumo de proteínas, açúcares e gorduras, me parece o ideal. Evitar o consumo excessivo de carne vermelha, sal e muito açúcar são medidas interessantes. Em relação ao consumo dos vegetais e frutas, devemos tomar cuidado para que estes não estejam contaminados por inseticidas, pois estes são causadores de câncer. A prática de exercícios físicos, nas suas diversas modalidades, é importante, principalmente, para evitar o excesso de peso.

Tenho um amigo que diz que se o “homem fosse animal de corrida, evolutivamente, ele seria um quadrúpede e não um bípede”. Não estou seguro de que os praticantes de exercícios físicos tenham uma maior longevidade, mas, observo que eles parecem ter uma qualidade de vida significativamente melhor.

Existe uma série de lesões que são consideradas como pré-cancerosas, ou seja, lesões que estão a caminho para se transformar em câncer. Como exemplo, podemos citar alguns tipos de “pintas pretas da pele”, conhecidas na linguagem médica, como nevos, estas lesões devem ser avaliadas pelo médico e, no caso de suspeita, devem ser removidas para se evitar o melanoma (Fig.9), doença que, se não diagnosticada no inicio, é acompanhada de uma alta taxa de mortalidade.

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O câncer do intestino grosso é o segundo  tumor mais frequente na mulher brasileira e o terceiro  no homem. Quase 100% destes cânceres vêm de um pólipo que é uma lesão semelhante a uma verruga que, na maioria das vezes, fica pendurada na camada interna do intestino (mucosa) pedindo para ser retirada durante uma colonoscopia, por isto é que a Associação Americana de Combate ao Câncer aconselha a cada um de nos que não tenha fator de risco para o câncer de intestino grosso, fazer a primeira colonoscopia aos 50 anos de idade e, se normal, repeti-la a cada 8 a  10 anos após.  Costumo brincar com meus pacientes que só tem câncer do intestino quem quer. Vale a pena lembrar que hoje estamos curando pouco mais da metade dos casos de câncer do intestino grosso, porque, infelizmente, quando o paciente tem algum sintoma, como, por exemplo, dor, sangramento ou diarreia, muitas vezes o tumor já é muito avançado.

São fatores de risco para o câncer colorretal, os casos de câncer hereditário, famílias que já tiveram casos de câncer ou pólipos. Estas, de acordo com a orientação médica devem fazer o exame antes.

Uma mulher que tem uma inflamação crônica no colo uterino, relacionada ou não à HPV, pode evitar o câncer do colo uterino tratando estas lesões precursoras. Passar no médico, periodicamente, identificar alguma lesão precursora para câncer de colo uterino, é a melhor maneira de prevenir a doença. A prevenção primaria contribui, significativamente, para a redução das taxas de incidência e mortalidade por câncer. Ensinar prevenção primária no ensino básico seria a meu ver uma forma interessante de prevenir câncer.   A prevenção secundária, também conhecida como rastreamento ou screening, consiste em se fazer diagnóstico de câncer em pessoas que não sentem absolutamente nada. Seria como fazer um check-up cardiológico, em uma pessoa que ainda não sente nada, para se detectar alguma doença cardiovascular.

Muitas vezes, esperar por um sintoma pode ser tarde. Vale lembrar que o câncer, em suas fases iniciais, é uma doença assintomática (sem sintomas). Pessoalmente, gostaria que no início ele fosse uma doença tão dolorosa como uma pulpite dentária, que obrigaria a pessoa a procurar o médico, o mais rápido possível. Se fizermos diagnóstico precoce de câncer, podemos curar cerca de 90% dos casos e, mais importante que isto, a baixo custo e sem mutilação (Quadro 2). Um check-up oncológico, para o  diagnóstico precoce de câncer, a nosso ver, deve ser feito em qualquer pessoa, aos 50 anos de idade, para pessoas que não tem histórico de câncer na família  e, naquelas que o tem, antes disto, de preferência cerca de 10 anos antes que o familiar teve a doença.

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As perguntas que habitualmente são feitas em consultório são: como se fazer um check-up para detecção precoce de câncer? Precisa procurar vários especialistas? Quais os exames são necessários? Custa caro?.

Em relação à primeira pergunta, digo que é necessário procurar um médico, com boa formação em Oncologia, ou outra área, que converse muito com você para identificar seus fatores de risco, o examine da cabeça aos pés, e peça os exames pertinentes, como exemplo, uma mulher de 50 anos de idade, que não sente absolutamente nada e que no exame médico não é encontrado nada, deve ser submetida à uma colonoscopia e mamografia é colheita de material para Papanicolau. Um homem, nesta mesma idade, também com exame físico negativo, tem que submeter-se à colonoscopia, toque retal, dosagem de PSA. O câncer do intestino grosso é o segundo tumor mais frequente na mulher brasileira, deixando de lado o câncer de pele, e o terceiro no homem, quase todos os casos, vem de um pólipo, que é como se fosse uma pequena verruga pendurada na camada interna do intestino grosso (mucosa). Estas lesões, em geral, são removidas durante a colonoscopia, fazendo-se prevenção primaria, ou diagnostico precoce  se já estiverem transformadas em câncer. Outros exames deverão ser solicitados pelo médico, na dependência dos fatores de risco e dos achados do exame físico do paciente.

Considerando os custos com o tratamento de tumores avançados, as menores taxas de cura e sobrevida, e as perdas funcionais, o onco-check-up é muito barato. O rastreamento populacional é indicado para tumores frequentes, casos onde os métodos de diagnósticos sejam efetivos e de baixo risco e os métodos de tratamento sejam efetivos.  Em termos de saúde publica, para se fazer diagnóstico precoce de câncer, é necessário, um Sistema de Saúde de atenção primaria bem estruturado e  médicos bem formados. Em câncer pode-se falar também em prevenção terciária e quaternária. Na primeira, o paciente já tem algum sintoma, como por exemplo, um sangramento por via urinária (hematúria) ou via anal. Passa por um médico que o trata como doença benigna como, por exemplo, infecção urinária ou hemorroida. Esta paciente poderia ter um tumor na bexiga ou no reto, ainda pequeno, e por ter passado despercebido, poderá voltar mais tarde com um tumor mais avançado. Neste caso, a despeito dos sintomas, o médico não preveniu o avanço da doença por tê-la deixado passar despercebida.

O termo “prevenção quaternária” refere-se aos casos fora de possibilidades terapêuticas para doença de base, ou seja, os casos onde o paciente já foi tratado com todas as modalidades terapêuticas para a doença de base e, nestes casos, deverá ficar sob cuidados paliativos, que tem por objetivo, cuidar da higiene, nutrição, aliviar a dor e assistência espiritual, na dependência da crença e do desejo do paciente.